Depois de uma epopéia para conseguir o ingresso, eu, Guilhermino e Macaco Louco assistimos a um belo espetáculo.
Tá certo que os caras do AC/DC fizeram o mesmo show de 96, mas é como disse o Guilherme, se na semana que vem eles estiverem aqui e for o mesmo repertório estarei lá.
Brian Johnson com seus 62 anos está cantando cada vez melhor. O que dizer de Angus? Nada, só babar.
Puta som desses australianos infernais, som único, nunca mais vai existir uma banda como eles.
O Morumbi estava chapado de gente. Eu não tenho mais idade para isso, estou morto. Dá próxima só se for de arquibancada, o show do Metallica logo logo está aí também.
Depois na saída para o Rodrigo pegar um táxi foi um Deus nos acuda, nunca vi tanto taxista cuzão, os caras escolhiam as corridas, uma hora estourei, "se fossem três meninas bonitas você levava, não, é?! Então, por que você parou? Vai embora então, otário!".
Por que será que as pessoas nunca acreditam na gente?
Tem certas horas que desisto de explicar, não vale a pena, ninguém vai acreditar em uma só palavra do que eu vou dizer.
Que bela reputação.
Tem algumas pessoas que sinto quando falo elas não estão dando a mínima para o que sai da minha boca. Só o que vale é o que elas fazem, e o que elas pensam.
Outras são tão avoadas, desligadas, que tenho a absoluta certeza que vou ter que repetir mais umas mil vezes.
Por isso que sou um cara de poucas palavras.
Pra quê ficar me matando se no final vou ter que ligar o repeat.
Minha mãe me avisou que estava passando uma entrevista no Jô com o diretor italiano Giuseppe Tornatore, olha só a frase dele que achei no site da Mostra de filmes italianos, em que Tornatore é o convidado ilustre, "Nunca faço filmes pensando no que a audiência vai pensar, muito menos a norte-americana. Sempre penso num escritor da Sicília que tem uma frase que me serve como um mantra: ‘Sabe a diferença entre um relógio parado e um que está sempre três ou quatro minutos atrasado? O atrasado nunca mostra a hora certa, enquanto o parado acerta duas vezes por dia’. Sou o relógio parado. Se faço um filme e ele me satisfaz, ótimo. Se, além disso, agrada à audiência, melhor ainda.”
"Tenho almoçado sozinho com meus coturnos sem cadarço e meu olhar perdido na janela do restaurante. Uma taça de vinho que sempre derrama algumas gotas no meu casaco. Dia desses entrou no restaurante um cara que me lembrou o Ivo de "Ladeiras em carrinhos de supermercado", ou talvez ele tenha me lembrado o meu amigo Nelson Peres que fez a primeira leitura do texto lá no Masp. Só sei que eu podia acompanhar o seu andar triste enquanto tentava escolher a mesa e já procurava um garçon com aquele olhar um pouco conformado de "ok, vou ter que esperar para ser atendido". Aí entrou uma ex-namorada no restaurante, alguém que um dia eu achei que podia confiar minhas feridas. Minha enfermeira de plantão. Alguém que diria : "Cuidado. Esse lado pra cima. Ele é frágil". Lembrei de uma velha música do Belchior enquanto ela apenas me cumprimentava com um aceno de cabeça. Um jeito distante de aceitar a minha presença no mesmo lugar que ela e lembrei do mesmo Ivo falando: "Nada é mais constrangedor que a formalidade típica entre duas pessoas que foram íntimas um dia". Conseguia ouvir o clone do Ivo dizendo aquilo para o garçon que veio atendê-lo embora ele provavelmente estivesse apenas e formalmente dizendo: "Acho que eu vou comer o Capeletti ao forno e tomar uma taça de vinho". Penso que poderia ter sobrevivido àquele almoço se o passado não tivesse me acenado e perturbado a minha paz. Acho que eu queria que ela tivesse me olhado "com a vontade de um cão preso na coleira". Mas ela apenas me acenou com um ar distante enquanto devia estar pensando numa salada mista ou qualquer coisa do tipo. Assim são os personagens de Sérgio Melo. Eles podem ser encontrados nos lugares mais prosaicos. Numa loja de conveniência ou num bar mal afamado com uma juke box que só toca velhas canções de Neil Sedaka ou algo do tipo. Eles moram em casas pequenas onde a luz não entra com facilidade. Eles ouvem Chet Baker na penumbra e sempre tem um passado mais ou menos sombrio. E em algum momento de suas vidas, eles vão ter que enfrentar esse passado. E talvez não sobrevivam a ele. Alguns vão empunhar uma barra de ferro e esperar pelo inevitável. Sergio Melo leu Tenessee Willians e Sam Shepard com a atenção de um gato que vê o peixe sendo fisgado da frigideira e hoje vive com intensidade entre corridas ao sub-mundo, partidas de volêi e afagos na sobrinha desde que gritou o que achava ser seu segredo na Mercearia São Pedro depois de já ter bebido várias. Então nossa amiga Clarinha Averbuck falou com afetação blase : "E daí? Grande coisa. Eu também". Sérgio talvez tenha pensado não sobreviver ao seu segredo. Os personagens dele também temem por isso o tempo todo. E naquela noite enquanto ele parecia aliviado dirigindo o seu carro fui pensando nos homens e nos seus segredos, fui pensando no nosso instinto de sobrevivência. No coração de plástico que implantaram em nosso peito e esqueceram de avisar que era frágil. Então fico pensando que não preciso mais dessas lembranças todas. De acreditar que "o travesseiro um dia cobra". Vou escrever a minha história e Sérgio vai escrever a dele com a nobreza & coragem que lhe é peculiar. E ele não é o tipo de dramaturgo que esconde as pistas de sua história particular em suas histórias públicas. Elas estão lá. É só ficar atento. Como fazia Zé Vicente, por exemplo, só pra citar um dramaturgo brasileiro genial e mais próximo de nós. Sérgio Melo é antes de tudo um poeta refinado, alguém capaz de imagens assombrosamente belas como as batatas palito frigindo na peça "Aos ossos que tanto doem no inverno". Sérgio não tem noção de como foi importante pra mim trabalhar como ator nessa peça na fase de vida em que me encontrava. Mas sei que ele tem noção exata da ternura & da melancolia que brota dos seus versos tristes disfarçados em diálogos teatrais. Então aquele sujeito que bebe comigo & joga bilhar & fala de livros de Raymond Carver & é meio tímido quando tá sóbrio ou quando tem que falar em público & de quem eu tive dúvidas quando li o primeiro texto (só quando li os poemas do Sérgio é que entendi o imenso talento e toda a confusão) se tornou um dramaturgo personalíssimo. Então não vá achar que você vai ler esses textos e compreender toda a encrenca se em algum momento não se confundir com os personagens, não ouvi-los atentamente sussurrando em seus ouvidos "a vida não me reservou nada de esplêndido, mas eu fui lá e arranquei dela". Esse é um mundo frio onde "raramente acontece um olhar com carinho", mas nos textos de Sérgio, elas insistem em arder de um jeito quase inexplicável, então é possível acreditar que um sujeito que estava disposto a atirar na cabeça do outro, minutos depois vá até o quarto buscar um cobertor para que o seu desafeto não passe frio deitado no sofá. Sérgio há muito já entende generosamente que não há como passar por cima de nossos sentimentos mais simples. E isso faz toda a diferença."
-Mário Bortolotto –
*”Raramente acontece um olhar com carinho” é o nome de uma música de Guilherme Lamounier
6 caras trabalhando na mudança(mais eu e meu pai), os caras começaram 7:30 da manhã e só foram terminar a meia-noite. Isso foi na segunda-feira. Eles trabalharam sexta, sábado, domingo e segunda.
Numa certa hora, meu pai vira para um dos caras da mudança e pergunta:"pode falar a verdade, você já viu alguém guardar tanta tralha, tanto lixo?"
O cara disse que não. Falei para o meu pai, ganhamos!
Uma comédia, um dos caras era idêntico ao Mateus Nachtergaele,até a risada era igual. Um outro se chamava Maradona, era negão, mas baixinho.
*
Meu ingresso do AC/DC sumiu, na verdade sei que o ingresso está num quartinho, e na frente dele só existem umas 100 caixas. Bem fácil pra pegar.
*
É tanta coisa, que não sabemos onde está a maioria dos pertences, meu pai foi comprar uns shorts numa loja, depois de ter voltado, eu resolvi sair, cortei o cabelo ,fiz a barba, barbeiro mais rápido que conheci na vida, fez tudo em 20 minutos. Entrei em uma loja, e comprei mais algumas meias, e não é que sem querer e sem saber entrei na mesma loja que meu pai passou mais cedo, e fui atendido pela mesma moça, e o troco que ela me deu foi da compra dos shorts.